TERRAS RARAS, MINERAIS ESTRATÉGICOS x MERCADO MUNDIAL E TECNOLOGIA
- geologiagemma
- 20 de out. de 2025
- 6 min de leitura
1) Oferta global de "TERRAS RARAS E MINERAIS ESTRATÉGICOS ocorre “super-oferta” no mercado mundial
Não é uniforme. Alguns minerais estão sob forte pressão de demanda (lítio, grafite, níquel de qualidade para baterias), outros têm produção mais elástica. A IEA e o USGS mostram crescimento rápido da demanda por minerais para transição energética — isso tende a sustentar preços e necessidade de expansão de oferta. IEA Blob+1
Mesmo quando existe aumento de produção mineradora, o problema frequentemente é o refino/beneficiamento (etapa capital-intensiva, ambientalmente regulada e com know-how químico). Portanto o “excesso de minério” não se traduz automaticamente em excesso de produto final utilizável (óxidos puros, ímãs, óleos magnéticos, etc.). Publicações do USGS
2) Existe mercado consumidor para o produzido NO MUNDO?
Sim: mercado consumidor continua forte — setor automotivo (EVs), eólicos, eletrônicos, defesa, semicondutores, catalisadores e armazenamento. Projeções de demanda até 2030–2040 apontam crescimento sólido para quase todos os minerais estratégicos. A pressão por eletrificação e renováveis sustenta demanda de longo prazo. IEA Blob
3) China — qual é a real dimensão da dominação?
China domina grande parte do processamento e fabricação (magnets, óxidos, ligas), responsável por uma fatia muito grande da produção mundial refinada e de ímãs permanentes. Mesmo quando minério vem da Austrália, EUA ou África, muitas vezes o refino/transformação final passa por instalações chinesas. Isso confere poder de influência comercial e geopolítico (ex.: restrições de exportação recentes). China Briefing+1
4) Os EUA têm reservas ou são dependentes?
Reservas minerais: sim — há depósitos conhecidos (ex.: Mountain Pass, outros depósitos em vários estados), e recursos em países parceiros (Canadá, Austrália).
Dependência: apesar das reservas, os EUA foram historicamente altamente dependentes de importações para muitos estágios (produtos químicos, compostos e ímãs). Em 2023–2024 os relatórios USGS/NIH mostraram import reliance elevada para diversas categorias e que os EUA importam uma parcela substancial do que consomem. O governo tem políticas (incentivos, financiamento, parcerias) para aumentar capacidade doméstica, mas a mudança é gradual. Publicações do USGS+1
5) Quem tem chance de sobressair no futuro?
China: curto e médio prazo — pela escala e integração vertical continua como jogador dominante.
Austrália: forte no fornecimento de concentrados e já com infraestrutura para exportar minério; bons projetos de expansão.
Estados Unidos & Canadá: com investimentos (IRA nos EUA, iniciativas canadenses) podem ampliar mineração e, especialmente, o processamento se houver investimento contínuo. Porém precisam construir refinarias e fábricas de ímãs. IEA+1
Europa, Japão, Coreia do Sul: foco no downstream (ímanes, motores, indústrias automotivas), parcerias para garantir fornecimento.
Empresas privadas e reciclagem: quem dominar reciclagem de ímãs e baterias, processos de baixo impacto e refino eficiente terá vantagem estratégica. Tecnologias de substituição e design para desmontagem (circularidade) também são vetores críticos.
6) Riscos e variáveis que definirão o vencedor
Controle de refino/ química (mais importante que só ter minério).
Política e segurança nacional (restrições, subsídios, acordos estratégicos). Recentes ações e discussões do G7 mostram preocupação coletiva com a dependência chinesa. Reuters
Ambiental/regulatória — licenciamento para plantas químicas/refinarias pode atrasar projetos em países que tenham reservas.
Cadeia de valor integrada (mina → refino → ímã/compósito → componente final) é decisiva.
Inovação (reciclagem, limpeza de processo, substitutos) pode reduzir dependência de certos elementos.
Recomendações práticas (se você atua no setor mineral)
Mapear não só jazidas, mas quem processa e fabrica na cadeia (refinarias, produtores de ímãs).
Valorize projetos com integração química ou parcerias industriais (joint ventures para refino).
Considere reciclagem e contratos de offtake com montadoras/indústrias — contratos de longo prazo reduzem risco.
Fique atento a políticas públicas e financiamento (EUA/UE/Japão têm linhas para incentivar refino e plantas industriais). USGS+1
Resumo rápido
Não existe hoje uma “super-oferta” generalizada de terras raras e minerais estratégicos — a situação varia por metal: alguns (ex.: certo lítio em determinados momentos) tiveram oferta apertada ou picos de produção, mas, em muitos casos, há risco de dependência de gargalos de processamento e concentração geográfica da cadeia. IEA Blob+1
China domina a cadeia — sobretudo refino, ímãs permanentes e etapas químicas críticas (fração muito maior do que apenas a mineração). Essa posição permite a China influenciar oferta via licenças e controles de exportação. Reuters+1
EUA têm reservas, mas dependem de importações para muitos elementos e processos (import reliance alta para várias categorias; produção doméstica existe — ex.: Mountain Pass — mas o refino e a maioria dos ímãs vem da Ásia). Nos últimos anos os EUA têm programas e incentivos para reduzir dependência (investimentos, parcerias com Austrália/Canadá), porém a transição ainda requer tempo e plantas químicas/refinarias. Publicações do USGS+1
Futuro — quem poderá sobressair? Países/atores com combinação de (a) reservas minerais, (b) capacidade industrial de refino/química, (c) políticas públicas e financiamento (ex.: Austrália, EUA, Canadá, Japão, União Europeia, e — claro — China). Também entrarão na disputa empresas privadas que dominem refino, reciclagem e produção de ímãs. Tecnologias de reciclagem e substituição (menos metais críticos em alguns componentes) podem mudar o jogo. IEA+1
Atualmente no mundo a china tem o domínio como visto de tecnologia de terras raras nas negociações e os EUA são dependentes de importações destes elementos criando espaço de mercado mundial hoje de valor. O Brasil tem a chance de entrar mais fortemente nesse mercado (como discutimos), mas hoje ainda não está no nível da China nem dos EUA em termos de cadeia completa.
🇧🇷 1. Situação Atual, Chances do Brasil que tem o recurso geológico
O país possui importantes ocorrências e reservas de terras raras e minerais estratégicos, incluindo:
Grupo | Principais minerais/elementos | Principais regiões / projetos |
Terras raras (REEs) | monazita, bastnasita, xenotima, argilas iônicas | Araxá (MG), Catalão (GO), Serra Verde (GO), Pitinga (AM), Poços de Caldas (MG), Juquiá (SP) |
Nióbio | columbita-tantalita, pirocloro | Araxá (CBMM), Catalão (GO) — Brasil tem >90% das reservas mundiais conhecidas |
Lítio | espodumênio, lepidolita | Vale do Jequitinhonha (MG), Itinga, Araçuaí |
Grafite, Cobalto, Níquel, Manganês | — | MG, GO, PA, PI, MT, TO |
Zircônio, Tântalo, Vanádio, Titânio | — | MG, BA, AM, CE, PA |
📘 Fontes: CPRM, ANM, MME (Plano Nacional de Mineração 2050), USGS 2025.
➡️ Ou seja, geologicamente o Brasil é muito bem posicionado, com mineralizações conhecidas e ainda parcialmente inexploradas.
⚙️ 2. O grande desafio: processamento e tecnologia
O gargalo não é o minério, mas a etapa de separação, refino e transformação química.
Hoje, quase todo o refino de terras raras no mundo é feito na China.
O Brasil exporta principalmente concentrados, perdendo valor agregado.
Exemplo: em Catalão e Araxá há rejeitos ricos em terras raras que poderiam ser reprocessados com tecnologia adequada (ex: processo hidrometalúrgico).
💡 Sem plantas de separação de óxidos e de produção de ligas metálicas, o país permanece como fornecedor primário, e não produtor estratégico.
🏛️ 3. Oportunidades e políticas recentes
Nos últimos anos surgiram sinais concretos de interesse governamental e privado:
MME e ANM incluíram terras raras e minerais críticos no Programa Mineração e Transformação Mineral (2023–2024).
Projeto Serra Verde (Minaçu–GO) — primeira operação de terras raras em escala industrial na América Latina, voltada a exportação de concentrado.
CBMM (Araxá) — está investindo em níquel, cobalto, terras raras e baterias de nióbio.
Companhias estrangeiras (australianas e canadenses) estudam joint ventures para lítio e REEs em Minas e Goiás.
Política de minerais estratégicos em discussão no Plano Nacional de Mineração 2050, prevendo incentivos à cadeia produtiva completa.
🌍 4. Oportunidade global: o mundo quer diversificar da China
EUA, UE e Japão buscam fornecedores confiáveis fora da China.
Brasil pode se tornar parceiro estratégico — tem estabilidade política relativa, potencial geológico e experiência mineradora.
Isso abre caminho para acordos bilaterais (ex.: EUA–Brasil, UE–Mercosul) e investimentos diretos em plantas químicas e metalúrgicas locais.
💰 5. O que o Brasil precisa fazer para se destacar
Criar política industrial e tecnológica específica para terras raras e minerais críticos.
Apoiar P&D nacional (universidades, IPT, CETEM, USP, UFMG, UFG, UFOP, CPRM).
Atrair capital e joint ventures estrangeiras para plantas de separação e refino.
Integrar mineração com manufatura de alto valor (ímãs, ligas, semicondutores, baterias).
Formar centros de reciclagem e economia circular (recuperação de metais críticos de eletrônicos e baterias).
Agilidade da ANM e do licenciamento ambiental — sem reduzir o controle, mas diminuindo a morosidade processual.
🔮 6. Perspectiva de futuro
Se investir nas etapas química e metalúrgica, o Brasil pode, em 10 a 15 anos:
Tornar-se fornecedor global alternativo a China;
Exportar óxidos separados e compostos de alto valor;
Integrar-se às cadeias de tecnologia limpa, defesa e energia;
Criar um polo tecnológico (ex.: Triângulo Mineiro e Norte de Goiás).
Sem isso, continuará exportando concentrado e importando produtos refinados, perpetuando o modelo primário-exportador.
🔍 Conclusão
Sim, o Brasil tem chance real e expressiva — mas depende de decisão política e investimento em tecnologia de refino e industrialização.
Fontes principais consultadas (resumos / leitura recomendada)
USGS — Mineral Commodity Summaries (chapters em Rare Earths, MCS 2024/2025). Publicações do USGS+1
IEA — Global Critical Minerals Outlook 2024 (demanda projetada para minerais da transição). IEA Blob
Reuters & análises recentes (outubro 2025) sobre controles chineses de exportação de ímãs/REMs e repercussões
Goiânia/Go-20/10/2025.
Silas Gonçalves
Eng Geólogo, Crea 2.883/D



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